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Dois dedos de prosa

Com Jean Wyllys



Foto: LesMonde

O Brasil passou a conhecê-lo depois do reality show: Big Brother Brasil, na Rede Globo, mas ele conta que já era militante das causas LGBT antes mesmo de entrar no programa. Contrariando a própria sorte, o menino pobre se tornou um intelectual, entrou em um dos programas de maior repercussão nacional para investir nos estudos e hoje é Deputado Federal, defensor da educação e dos direitos humanos. O futuro? Jean não gosta de fazer muitos planos, mas não descarta a possibilidade de avançar na carreira política e, quem sabe, chegar um dia à presidência. Afinal, para quem já ultrapassou tantas barreiras e luta sem vergonha e medo contra o preconceito e por um país mais justo e melhor para todos, esse pode ser o destino.

Foto: LesMonde

LM: Algumas pessoas se dizem contra o casamento igualitário, mas muitas nem sabe sequer o motivo da contestação. Explique-nos o que é o casamento igualitário:

Jean: Você tocou num ponto certo. As pessoas se colocam contra por falta de conhecimento, falta de informação ou por preconceito, porque a palavra casamento está sempre muito associada ao casamento religioso, ao sacramento da Igreja. Está ligada também ao imaginário popular, ao ideal de um lar, digamos matrimonial, a um ritual, ao vestido branco... Por tudo isso, dessa encenação no imaginário popular, a sociedade tende a achar que o casamento civil é o mesmo que o religioso. Aí a pessoa se coloca contra o casamento igualitário. Ao mesmo tempo não é algo explícito, não é dito isso com todas as letras, mas também uma vontade de negar direitos aos homossexuais. Se você perguntar para as pessoas se elas são contra dois homossexuais terem uma relação, elas vão dizer que não, mas ao mesmo tempo se você perguntar se essas pessoas que se uniram podem se casar, devem se casar e gozar de todos os direitos ligados ao casamento, a resposta é não. Aí você descobre uma cadeia de preconceitos.

LM: Após publicarmos um artigo seu no LesMonde, sobre a proposta do Casamento Civil Igualitário percebemos algumas reações adversas pelo twitter. Gente que acha que você não deveria só agir pela causa LGBT. O que acha disso e quais são seus outros projetos?

Jean: Esse pensamento é absolutamente infundado. Bastava a pessoa entrar no site da câmara e fazer uma pesquisa das proposições legislativas que eu fiz nesses sete meses, que ela vai ver que tem menos proposições legislativas para LGBT que para a educação, por exemplo. Esse comentário é típico de quem não quer ver, em hipótese alguma, os direitos do LGBT sendo defendidos com clareza e honestidade. Há os defensores do agronegócio, dos empresários, dos interesses evangélicos, mas as pessoas só tratam de reclamar de quem defende os direitos LGBT. É uma tentativa de me desqualificar, de me desautorizar, mas isso não vai me intimidar. Eu não vou recuar em relação a essa parte. Eu tenho absoluta convicção de que meu trabalho não se restringe a isso. Eu sou um deputado que defende e promove os direitos humanos.
O twitter é bacana, um instrumento maravilhoso de aproximação do público, mas nos expõe também, as redes sociais de alguma maneira, são suscetíveis a todo tipo de maníaco, de gente desequilibrada que se aproveita do anonimato para fazer ataques gratuitos, para promover campanhas difamatórias e, às vezes, orquestradas.

LM: Inclusive, você já recebeu uma série de ameaças pelas redes sociais. Como você lida com isso?

Jean: Através da justiça. Eu fiz um dossiê com todas as ameaças. Eu e minha equipe fizemos um trabalho sobre esses grupos de ataques e aproximamos os perfis, tanto do Orkut, quanto do twitter. Vimos que são, mais ou menos, as mesmas pessoas que estão orquestrando isso e entregamos à Polícia Federal.

LM: Você ganhou o BBB. Desde a época do programa era notória a sua inteligência. Você poderia (como deve ter feito) investir seu dinheiro em várias coisas. Por que se aventurar na política e lutar por uma causa extremamente polêmica?

Jean: Eu não entrei na política depois do programa. Eu entrei na política antes do BBB. Eu ingressei na política, no sentido amplo, na minha adolescência, na Pastoral da Igreja Católica, na minha cidade, Alagoinha. Eu e meus irmãos nos engajamos muito cedo. Depois passei uma fase no internato e quando cheguei a Salvador ingressei em um movimento gay, que na época nem se chamava LGBT. As primeiras paradas de Salvador, eu não só participei como organizei. Depois foi a época dos direitos humanos mais amplo, como crianças em situação de risco social. Já como professor universitário eu coordenei o Núcleo de Mídia e Cidadania da Faculdade Jorge Amado e, implantei nessa mesma universidade a pós em Jornalismo e Direitos Humanos. Ou seja, minha atuação política é grande e extensa e muito anterior à minha entrada no Big Brother.

Foto: LesMonde

LM: Você tem ambições políticas? Pensa em se candidatar ao Senado ou até mesmo à Presidência da República?

Jean: No PSOL eu não sou o presidente do partido, mas estou no diretório. Agora, eu não sou muito de futurologia, eu quero é fazer um bom mandato. Eu quero fazer deste, um excelente mandato e cumprir a maior parte das minhas promessas de campanha. Ainda que nessa candidatura eu não consiga, por exemplo, aprovar a minha proposição mais significativa, que é a PEC do Casamento Civil, que pelo menos tenha levantado uma discussão, através do meu mandato, fundamental para ampliar os direitos (dos LGBTs). Talvez nas próximas eleições eu me candidate novamente à deputado federal, talvez eu decida que não, talvez eu apenas volte para o movimento. Agora, não acho impossível, para a minha história de vida, para alguém que saiu da extrema pobreza e chegou aonde eu cheguei, passando por várias etapas...e é bom deixar claro que não foi o Big Brother que me tirou da extrema pobreza, o que me tirou foi a educação...enfim, para alguém que saiu da extrema pobreza e chegou onde eu cheguei, achar que eu posso ser Senador da República ou até mesmo presidente, não é algo impossível. Não é algo que eu descarto. Não acho que seria um milagre, se for um milagre, minha vida toda é um milagre.

LM: Você acha que existe diferença na discriminação entre gays e lésbicas?

Jean: As lésbicas gozam de uma tolerância social maior que do que os gays. A própria intimidade entre as meninas é socialmente mais tolerada e, culturalmente, mais aceita que a amizade entre os meninos. A intimidade entre os homens é por demais incômoda. O outro lado é: eu acho que as lésbicas acabam sendo mais discriminadas porque elas reúnem a condição de homossexual e de mulheres. A sociedade patriarcal ou machista coloca o princípio feminino como um princípio subalterno, ou seja, nessa sociedade ser mulher é ser inferior. Tanto é que quando eu era xingado na infância, eu era xingado de “mulherzinha”. As lésbicas são vulneráveis por serem homossexuais e porque são mulheres.
A mulher que decide sair com uma roupa mais sensual vai sofrer violência sexista. Vai ouvir: “Ah, é vagabunda”, “Saiu desse jeito, já está me dando mole, está me dando motivos para eu ataca-la”. A mulher não tem o direito, sequer, de se vestir como ela quer, de sair às ruas como bem entender, sentar num bar e tomar uma cerveja, que ela vai ser tratada como se fosse uma vagabunda. E por ser uma vagabunda, eles acreditam que ela deva ser vítima de violência. Além disso, se ele descobre que ela é lésbica, a violência aumenta. Aí vem o estupro corretivo, o bater.
A maneira como um homem bate em uma mulher lésbica, principalmente a lésbica masculina, é um horror.
Ele sente ódio da mulher lésbica masculina porque ela está se apoderando da “primazia” que é dele. Da mesma forma que ele surra um gay por crueldade, porque o gay está “abrindo mão da sua virilidade, do seu papel de dominador” para virar passivo, que é um papel feminino, ele surra a mulher masculina que quer aquele “lugar que é dele”.

LM: Como podemos mudar essa mentalidade?

Jean: A mentalidade a gente muda com investimento em educação, em segurança pública específica para grupos vulneráveis, a gente muda com política de geração de emprego e renda, investimentos em políticas de saúde e precisamos contar com a transformação na representação de vida que os meios de comunicação de massa fazem. As pessoas têm preconceito não porque elas querem ou gostam. O preconceito não nasceu nelas, como o pelo do corpo. O preconceito foi adquirido.
Muita gente pergunta assim: “Mas pra que querem o beijo gay nas novelas?” É pra isso! Para que a gente mude, à médio e longo prazo, a mentalidade das pessoas. Para que as novas gerações se acostumem a ver dois homens e duas mulheres se beijando NORMALMENTE, e então entender que a vida é feita de héteros e homossexuais.

LM: Para deixar a entrevista um pouco mais light: Você quer casar?

Jean: Quero. Claro que quero! Quero ter família, quero ter filhos. Quero casar sim, mas respeito os gays que não querem casar. Acho ótimo também que tenha pessoas que não queiram. Como há héteros que não querem, mas o direito tem que ser garantido. Com essa conquista do casamento civil, nós homossexuais, passamos a ter cerca de 70 direitos que nos são negados. Por isso que a grande batalha é a batalha pelo casamento civil, muito mais que a criminalização da homofobia, porque a própria homofobia vai sofrer um impacto cultural com a aquisição desses direitos (ao LGBT).
A gente não está pedindo que as pessoas amem os homossexuais a partir de amanhã, mas que elas entendam que os homossexuais não podem ser destituídos de direitos.

LM: Deixe um recado para as nossas leitoras.

Jean: Primeiro quero dizer que eu adoro as mulheres! Adoro as mulheres lésbicas! Sempre tive mais amigas que amigos, sempre convivi com as meninas e sempre me identifiquei com os princípios femininos e com a sensibilidade feminina. Aprendi muito com as mulheres. Acho importante que as mulheres lésbicas tenham um canal específico para elas e, que bom, que o LesMonde pode cumprir esse papel.
Fico lisonjeado de fazer essa entrevista, espero que todas fiquem atentas ao meu mandato, não se deixem cair em acusações fáceis e clichês acerca de mim e do meu mandato. Pesquisem, acompanhem através do site e da TV Câmara, as entrevistas, para entenderem que essa campanha difamatória que se faz contra mim não corresponde aos fatos. E ela é, na verdade, uma tentativa de desqualificar a todos nós. Ao me desqualificar, a tendência é desqualificar todos nós, LGBT.



Matéria publicada no LesMonde.com.br em 27/10/11 às 19:30

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O que as outras usuárias pensam...

27/10/2011 23:43:59 Carlla comentou:

Parabéns ao LM pela entrevista. Jean é um ser extraordinário! Sucessooooooooo!!!

28/10/2011 12:23:15 Juju comentou:

Nossa, me surpreendi. Não dava nada pelo Jean, confesso ser uma daquelas que acha que todo político é safado. Mas ele ganhou minha atenção, achei ele muito inteligente e coeso, nao fez um discursinho enlatado. Falou do coração mesmo, surpreendida e vou prestar atenção no mandato dele mesmo.

28/10/2011 12:30:28 Natalie comentou:

É exatamente isso que eu sempre achei!! Na questao da mentalidade, nossa, disse absolutamente tudo. É pra que isso que a gnt luta pelo beijo gay na novela, pela aceitação da sociedade em me ver andando de maos dadas com a minha namorada, ficante, mulher, QUE SEJA. Eu quero é ser aceita, pq se fosse com meu namorado ninguem ia se importar. Direitos iguais pra quem ama diferente do que a sociedade impôs !!

28/10/2011 12:50:28 EMILY comentou:

Sensacional, me arrepiei lendo. Jean é uma pessoa iluminada e a partir de hoje vou agradecer todo dia por temos alguem como ele tentando lutar pelos nossos ideiais. Uma tremenda inspiração.

28/10/2011 12:54:48 Jessica comentou:

Precisamos de mais pessoas como ele no mundo.

28/10/2011 13:09:03 João comentou:

Muito bom, coerente e bem fadado.

28/10/2011 13:22:01 Cecilia comentou:

Parabéns LesMonde, uma das melhores entrevistas que já li

28/10/2011 13:30:22 Roberta comentou:

Jean é apaixonante! Entrevista maravilhosa! Me sinto representada por vc e suas palavras! Obrigada querido!

28/10/2011 14:39:38 Lolly comentou:

Super me surpreendi e virei fã!

28/10/2011 15:49:11 Paula Rezende comentou:

Quanta fluidez pra falar desse assunto, que nao só nos interessa. Deveria ser do interesse da população toda. A educação e o respeito é o caminho pra evolução da humanidade.

28/10/2011 19:53:48 Irma comentou:

eu não gostava dele, mas a intelgencia dele me conquistou!! parabéns pela matéria.

31/10/2011 19:51:22 Hannah comentou:

Um genio.

31/10/2011 21:42:56 Bela comentou:

Lindas palavras, me conquistou. Nao conhecia o trabalho dele, nem nunca procurei saber muito bem sobre seu mandato. Me envergonho. Luto pelos direitos LGBT, entao devo com toda razão procurar saber sobre os políticos que abraçam nossa causa.

01/11/2011 16:40:29 Valdeck Almeida de Jesus comentou:

Jean Wyllys está em todas. Ainda bem que as mídias lhe dão apoio, pelo menos as mídias alternativas. A grande mídia nem sempre mostra o lado humano, o batalhador dos direitos humanos. Parabéns ao site LesMonde, que eu não conhecia ainda. Parabéns ao Jean pela entrevista e pela luta. Jean Wyllys é um daqueles raros políticos honestos, de corpo e alma, que aparecem de vez em quando. Cabe a nós, eleitores e admiradores dele, votar, apoiar, divulgar os trabalhos dele, falar bem em todos os cantos.... O Brasil ganhou muito com a candidatura do Jean, professor, jornalista, escritor, irmão, amigo, pesquisador, documentarista e agora, Deputado Federal. Com certeza votarei nele para Presidente da República, caso ele se candidate... E levantarei a bandeira e divulgarei por onde eu passar... Jean é do bem!

08/11/2011 13:38:57 Lele comentou:

Melhor entrevista que já li.

12/11/2011 12:42:14 Bia comentou:

Que entrevista boa, muita coisa que li, confesso que nao fazia ideia antes. Muito esclarecedor. Meus parabéns Jean e Lesmonde

22/03/2012 01:11:33 gilma lucia barbosa comentou:

tou bege,sempre procuro noticias do jean, como torci naquele bbb5, amava o triojean,pink e grazy,mas desde o inicio já o via como vencedor, sempre ali quietinho na dele e o preconceito morbido do dr marcelo, podre demais, bons tempos de bbb , sou sua fã jean, só fiquei triste pq amava a pink e ela ficou enciumada por causa do Alan, mas nunca mais esquecerei aquele bbb, lembro-me q vc na época disse q seu sonho era escrever uma novela cuja atriz principal seria Adriane Esteves ficou só no sonho ou se tornará realidade?Sou sua fã de montão re desejo tudo mais q vc já conseguiu bjssssssssssssss

 
   
 

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